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  • Foto do escritorCássia Gentile

O SÍTIO DO QUADRO

Apesar de ter passado minha infância no interior de SP, nossa família vivia na cidade, Itápolis, mas com muitos tios, tias e primos moradores na zona rural, fazia com que muitas vezes fôssemos visitá-los em alegres domingos. Saíamos cedo de casa, meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Íamos em um fusquinha azul que enveredava pela estrada que começava na caixa d’agua em direção ao bairro do Quadro, pois o sítio se localizava nas suas proximidades. Ao chegarmos na entrada que dava acesso ao sítio, víamo-nos abraçados por uma densa e sombria floresta que aos poucos se abria para dar lugar a um pasto enorme onde as vacas pastavam mansamente. Aí, era preciso alguém saltar do carro para abrir a porteira, o que ninguém queria, diga-se de passagem. Seguindo mais alguns metros, divisávamos a porteira com a casa da fazenda logo atrás e com um dos primos já encarapitado no mourão da porteira para rapidamente abri-la e deixar o carro passar.


Na chegada, cumprimentos, apertos de mãos, saudações dos tios e primos que eram muitos. Nos momentos seguintes havia uma divisão, os adultos adentravam a casa e nós, as crianças, estávamos finalmente livres para explorar o sítio e seus mistérios. Pra começar as primas mais velhas e minha irmã não queriam que nós, as mais novas, as seguíssemos, o que de nada adiantava porque se corriam, corríamos, se pulavam uma cerca pulávamos também, se paravam, parávamos. Numa destas tentativas de fuga pularam uma cerca e subiram em um pé de joão-bolão que ficava bem no meio do cercado e lá fomos nós também pular o cercado e subir no pé de joão-bolão. O que eu não sabia era que ali ficava preso um porco bravo que corria atrás das pessoas que cruzavam a cerca. Era um cachaço, nome dado ao porco que não era castrado servindo apenas para reprodução. É, crianças podem ser bem ruins, às vezes. Minha sorte e da outra prima, esta moradora do sítio, mas que nada me contou foi que o mesmo não estava nas imediações. Só soube do perigo mais tarde.


Uma outra diversão era andar com os pés descalços pelos grãos de café que ficavam espalhados pelos terreiros a fim de secarem. A sensação de afundar os pés naqueles grãos era deliciosa. Em seguida, conseguido papelões, escorregávamos ladeira abaixo em um declive gramado perto do forno de barro. Algum tempo depois vinha uma das primas mais velhas pra alimentar as galinhas, recolher os ovos e tratar os porcos, pois a vida no sítio não para por ser domingo. Era preciso alimentar a bicharada. Ela abria a “tulha” onde eram guardadas as espigas de milho maduras, debulhando-as e espalhando-as pelo terreno e, então, uma algazarra se formava, pois juntava todas as galinhas, as normais e as d’angola,, pintinhos, galos, todos correndo em busca do grão dourado, enquanto os porcos grunhiam à espera da lavagem com que eram alimentados.


Pouco tempo depois era a hora de “caçar” a pobre da galinha que seria servida no almoço. Ah! era um corre-corre danado pra conseguir pegá-la... que dó.


Enquanto tia Irma e filhas preparavam o almoço, tio Pedro nos convidava juntamente com meu pai para um passeio no cafezal formado a alguns quilómetros dali. Subíamos todos na caçamba da camionete e íamos cantando pelo caminho “Ó, Seriema do Mato Grosso, seu canto triste me faz lembrar, daquele tempo que eu viajava, tenho saudades do seu cantar” e assim sacolejando, íamos e voltávamos alegres e a esta altura com muita fome. Então, o almoço era servido na grande mesa de madeira, ladeada de compridos bancos também de madeira. A comida toda feita no fogão de lenha, era apetitosa, bem temperada e bem servida. Terminado o almoço, as mulheres iam arrumar a cozinha e os homens iam “prosear” na varanda. Nós, íamos explorar o pomar de inúmeras árvores frutíferas, onde o pé de jaca reinava majestoso. Tinha também pés de carambola, tangerina, laranja, jabuticaba, abacate, goiaba e depois de um tempo parávamos para descansar na beira do poço que “nutria” e “servia” todos os seres viventes do sítio como matar a sede dos seus moradores, cozinhar, lavar a casa, banho, pois que não havia água encanada e nem eletricidade. O uso de lamparinas era comum na época e assim que o sol declinava no horizonte era a hora de encher as lamparinas com querosene, o que emprestava um aroma peculiar nos ambientes. Em um quartinho próximo à cozinha ficavam guardados os queijos a secar, as linguiças penduradas, os ovos recolhidos e as latas de gordura.


Para lavar a roupa era necessário ir para a beira do rio, onde tábuas de madeira eram colocadas na beira do riacho e ali passava-se horas a lavar roupas que, depois eram colocadas em bacias, que iam sobre a cabeça para serem estendidas em longos varais perto da casa, pois precisavam ficar a salvo das vacas. Quantas histórias ouvi contar de cobras que apareciam por lá e éramos sempre alertadas para não nos aproximarmos do “buracão”, uma depressão enorme onde o riacho desembocava.


Havia a horta também que eu adorava, pois em meio aos canteiros, corria um riachinho de onde a água cristalina era retirada com um regador para molhar os inúmeros canteiros de alface, tomate, rúcula, repolho, couve, cenoura, agrião, pimentão, berinjela, rabanete, chuchu, vagem, salsa, cebola, cebolinha...ah! eu me encantava com o que se podia colher de um pedaço de terra plantado e bem cuidado. Abençoada terra, abençoadas sementes, abençoadas as mãos que plantavam e cuidavam.


Ainda com o sol a clarear o dia, gostávamos de “montar” fogõezinhos de tijolos e tirávamos as brasas do grande fogão de lenha da cozinha, o que sempre causava preocupação para os adultos e cozinhávamos punhados de arroz em latinhas improvisadas. De outra feita, brincávamos de pega-pega, o que me levou a subir em um trator, onde escorreguei, machucando o joelho interno...o que chegou a ser necessário alguns dias depois, ir ao hospital para lancetar o que se tornara uma bolha de pus e fazer curativo.

O grande curral, onde ficavam presas as vacas leiteiras, também era visitado por nós. Cedinho o leite era retirado e levado para a cozinha onde era fervido para alimentar a todos em grandes tigelas onde nacos de pão ou polenta “nadavam” envoltos em açúcar cristal.


Não posso deixar de lembrar que certa feita, minha irmã se aproximou de um bezerro que fora apartado da mãe para que não mamasse, pois isto redundaria em falta de leite no dia seguinte, e o mesmo deferiu-lhe um coice, mas sem grandes consequências, no entanto uma lição fora aprendida, “bezerro não é cachorrinho”.


A esta altura, para a nossa tristeza, se avizinhava a hora do retorno para casa, pois precisava-se descansar para recomeçar a lida no dia seguinte. As despedidas eram sempre de agradecimentos e promessas de retorno breve e assim subíamos no fusca azul, enquanto um dos primos abria a porteira e com acenos de mão e já com saudades nos olhos íamos rumando de volta à cidade depois de um dia grandemente aproveitado.

Escrevo, porque as lembranças se fazem presentes nos dias de hoje e me divirto muito neste exercício de recordar. Espero que vocês também se divirtam. Até a próxima vez.


Penso que falarei dos circos....

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